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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Amor de Inverno




Um banho muito quente, o banheiro preenchido pela fumaça, os seus espaços mais secretos desvendados por uma umidade que não pede licença e embaça até a sua imagem refletida no espelho. Um banho quente, nesse inverno tão frio, um pijama também quente – combatamos o frio em nós, sem dó.

Depois de um dia em que a mente se sente cansada e propaga isso pelo corpo inteiro, um cansaço que alastra-se pelos poros, pela pele, pelas veias, que abate os olhos, que faz os ossos doerem – aquele cansaço que ousa mexer nas esperanças, que dissolve a vontade de tentar de novo e a idéia fixa de recomeçar, outrora tão viva e acompanhada da sensação de que seria eterno. A mente se cansou de tentar evitar aquelas idéias fixas, aquela mania que ela não sabia de onde vinha, a estranha mania de eternizá-lo e acreditar que daria certo. Um dia de conflito intenso, todos os pensamentos se transformavam nele rapidamente.

Vestiu meias grossas, se sentiu quente, confortável. Foi até a cozinha e pensou no que faria pra comer, sopa, fondue, chá, mas dentro dela nada era aceitável, mantinha a estranha idéia de que tudo só poderia ser feito a dois, afinal, foram muitas as noites em que o frio do inverno significava dizer adeus a solidão. Dormia acompanhada, comia acompanhada e o imaginava que o tempo era fechado, os dias eram fechados e não era necessário fazer o corpo sofrer, fazer o coração chorar de novo. Buscava amores de inverno, julgava-os mais úteis que os de verão. O verão é iluminado e alegre, cheio de amigos e opções de lugares, bares, festas, praia – a solidão descansa, nem incomoda- mas o inverno junto com a solidão seria fatal. Depois de tanto pensar decidiu preparar um caldo com ervas, desses que vendiam pronto, era só adicionar água fervendo que parecia estar fresco. Ligou o som e se deparou com a música que dizia Veja bem além desses fatos vis, saiba, traições são bem mais sutis – se eu te troquei não foi por maldade, amor, veja bem, arranjei alguém chamado saudade’, depois desses versos, o frio que tentou evitar percorreu todo o seu corpo em forma de arrepio, um arrepio de saudade, de vontade, de nostalgia.

Era pra ser só mais um amor, só mais uma aventura nesses dias frios mas ela se entregou além do planejado. Fez o que não julgava necessário, pediu o que jurou que nunca pediria a mais ninguém, dançou, amou, beijou, se entregou como nunca. Tudo isso nos braços de um desconhecido que quando lhe tocava fazia todo o seu corpo decifrá-lo como um amigo íntimo, um pedaço dela esquecido em algum lugar, em alguma parte do tempo. Viveram juntos por três meses, dividiram o edredom, as sopas, as meias, a cama, o amor – o amor que quanto mais era dado mais se multiplicava e virava uma sede, uma gana, um desejo insuportável de fazer o outro feliz, um vício, uma doença – ele. Se apaixonava a cada dia e de uma maneira tão avassaladora, tão forte, tão intensa, características de uma paixão – a paixão, esse primeiro estágio tão doce do amor, tão irracional... há quem deseje ficar estagnado nele a vida inteira, que o amor nunca chegue, nunca vire esse costume, que seja sempre paixão, que doa o coração, que machuque mesmo, que seja intenso.

- Sabe, eu nunca esperei nada de você. Disse ele, após acordar ao seu lado com os olhos ainda inchados e brilhando de uma maneira tão ímpar.

- Você não espera nem amor, nem cuidado, nada? Então o que te atraiu em mim, o que te fez querer compartilhar, dividir comigo a sua vida?

- O que me atraiu em você foi o que os seus olhos disseram, você nunca foi boa com as palavras, nunca me prometeu amor.

- O que você espera de mim?

- Continuo sem esperar nada de você. Sabe, meu bem, acordar ao seu lado e poder te fazer feliz é o que eu espero de mim em relação a você, eu nunca me frustrarei com as expectativas que eu criar em relação a mim mesmo, mas nunca saberei o que esperar do outro, o que esperar de você. O que eu fizer com você vai voltar pra mim. Quando é amor, amor mesmo, os corpos se comunicam, os sentimentos se comunicam e a troca nunca é algo desequilibrado.

- Eu espero muito de você.

Os olhares se afastaram e o coração dele batia mais forte, tinha pavor a expectativas, esperanças, tinha mesmo era medo do amanhã. Não era bom que alguém esperasse algo de outro alguém, pra que serve essa esperança? Porque não deixar que o destino prove se haverá mesmo troca, se é mesmo genuíno ou vai passar? A partir dessa manhã, uma manhã de agosto, ele não conseguia mais seguir adiante com sinceridade, sentia medo. E se culpava por começar uma conversa que a fez confessar o que seu coração não estava preparado pra ouvir. As manhãs nunca mais foram as mesmas, os diálogos foram julgados desnecessários, as conquistas foram julgadas bobas, vãs, pequenas. Os corações estavam cada vez mais distantes.

Numa tarde de sábado, enquanto ela fazia compras, escolhia as melhores comidas prontas, as melhores opções de um prato quente e planejava dedicar a sua tarde a compras e a preparação de um jantar lindo, cheio de vontade de trazer a paixão de volta, a paixão que em algum momento sumiu junto com a sopa, evaporou junto com a fumaça dos banhos quentes na madrugada. Neste sábado, ele fazia as malas, junto com todas as coisas boas que viveram juntos, tentando fazer renascer aquela esperança, pensando até num novo amor, alguém que também não buscasse tanto, não esperasse tanto como ela.

Partiu, como todos os amores que deixam a paixão de lado e alimentam-se da venenosa rotina. Deixou um bilhete, era só o que conseguia fazer:

Meu bem,

Desculpe-me a covardia – eu estou indo. Não quis olhar nos seus olhos porque eu tenho muito medo da frustração e sabendo que você não esperava a minha partida, certamente eu teria diante de mim uma grande mulher chorando por uma decepção, por um homem covarde que não sabia mais o que tinha feito com a paixão. Eu deixei morrer, eu matei lentamente ou perdi e não faço a mínima idéia de onde tenha ido parar- pode ter descido pelo ralo da pia junto com a sopa, pode ter se confundido com meus papéis no bolso da calça, com meus documentos no escritório, pode ter entrado pra sempre debaixo da saia daquela morena que atravessa em frente ao meu carro todas as manhãs, pode ter se afogado na minha cerveja nos finais de semana, ou pode ter virado um gol no futebol aos sábados. Me perdoe, meu bem, pela partida, mas eu quero ir sem ver a sua reação ao ler esse bilhete. Eu parti porque sem paixão não dá. Quer um conselho? Faça o mesmo, só prossiga se houver paixão, se não houver não adianta nem começar, é perda de tempo e ferida gratuita. Essa coisa de paixão é mesmo uma desgraça, tem que estar em tudo; sem paixão é tédio. O que eu sinto por você é o desejo de te fazer feliz, se eu não posso fazê-lo, desejo que você seja feliz, como for. Um feliz agosto pra você.

Sem mais,

Seu bem.

Não houve nada além do tempo certo – a eternidade, meu caro, cabe exatamente num pedaço de tempo que não pode ser mais nem menos, tem que ser a dose exata pra fazer sentido. Não será eterno o que acabou, seja lá de que forma. É eterno apenas o que é interrompido, não acabado. E o amor? Ah, esse dificilmente tem conserto.

Ela se mantém sozinha nesse apartamento, chorando quando lembra daquele sorriso e de como cabiam um no outro, como se completavam. Mas sorri, quando percebe que toda essa loucura é sinal de que aquele amor de inverno foi único, nunca mais vai se repetir – conseguiram eternizar.



10 comentários:

BelaTeixeira disse...

Faz tempo que eu não te lia nessa intensidade...
Fiquei confusa lendo tudo... acho que vou reler ainda algumas vezes...

Estava com saudadades! Tava indo te deixar um recado quando vi a att...
Quer saber? Vou fazer isso!

Marih disse...

Perfeito! Essa palavra expressa bem tudo que é o seu conto!

Bruna Trindade disse...

De praxe, né, sônia? Lindo, lindo!


Como eu já disse, repito: esse é o melhor que você já fez até agora!
É forte, verdadeiro, sincero.
Muita inspiração pra você porque eu amo ler cada doce confissão.

Beeijo ;*

Bianca Issler disse...

texto maravilhoso, lay... toca fundo na alma.
beijo grande e muita e muita inspiração pra você!

Anônimo disse...

Você tem muito talento e isso é raro hoje em dia. Parabéns.

Ana Paula Duarte disse...

Olá Laiz...Somos colegas de curso sim, na verdade, sei quem vc é, já te avistei pelos corredores, vc pode não reconhecer por conta do cabelo defogo, minha mais nova loucura.
Qto ao blog, gostei bastante dos contos e de todas as confissões, tens uma forma bem particular de escrita, que atinge e torna um pouco minha também, nossa, de todos...
Bem, o espaço literário é um blog voltado p literatura, artigos acadêmicos e etc, escrevo mais assiduamente no www.anaconfabulando.blogspot.com, dê uma conferida!
No mais, abraços pra vc e obrigada pela visita.

Anônimo disse...

Amiable dispatch and this post helped me alot in my college assignement. Thank you as your information.

Naraiana Costa disse...

pxi..
A Layz Costa me tirou as palavras.

Anônimo disse...

Impressionante o seu talento, não me canso de te elogiar. Já votei inúmeras vezes no seu blog, suas palavras num livro seriam a coisa mais fantástica. Parabéns.

Laércio Neto disse...

Muito lindo !
Sensível, poético, profundo.
Muito a ver comigo.